29 de fev de 2012
A minha lógica então se enfurecera do homem que a subestimara
Olhava para aquele que na verdade, era quem queria dizer-me algo
E com pouca insistência, pois já o conhecera, refiz o olhar e olhei a mim mesmo
Isso é o que torna o corpo vulnerável e a alma sempre a espreita
O suor não se identifica mais com o seu cheiro
E a canção não segue as mesmas rimas de outrora

Decadentes estão as folhas que, ao bater simples do vento, não resistem
Exaurida está a mão que não mais suplica o encontro desejado

Nem tudo é tão impiedoso que não encontre consolo

Pois a água turva ostenta caminhos que as conduzam a mares tranquilos
que, em definitivo, não o são

Os francos e sinceros abraços diluem-se nos pensamentos de pertença
E acabam esquecendo que existe a gratuidade, perseverança e resposta

As cores ficam fortes e transitam em meus olhos cansados
Esses o estão não pelo tempo, mas pela resistência hostil

Meu abraço assexuado estima por sentimentos
Meu olhar cansado procura a graça que o reflita
Se foi por Deus que a humanidade encontrou a paz
Por Ele venha a merecida paga

Inesquecível é o exagero na infância
Era uma droga que já nos auxiliava
Hoje eu quero esquecer todos os dias
E me drogar com as suaves agonias

Crescer pra mim talvez não tenha feito o certo
Minhas vontades em certezas e avarias
E pouco a pouco fui notando que a festa
Acabaria logo então eu só ficasse


Me arrependi, já era tarde então dissera:
Por que então abandonastes o teu escravo!
Agora eu sinto que o crime cometido
Pra mim foi lucro embora tarde anoitecia

Então ingênuo eu achava que o tempo
Era só meu e os meus pais não mais morriam
A morte era meu brinquedo preferido
De tantas célebres e graves poesias

Usando o outro como palco da comédia
O aplaudindo com distinta reverência
Ao pobre, fraco, abandonado insurgente
Adrenalina em doses rasas, comedidas








27 de fev de 2012
Faz-me sorrir enquanto a chama queima
Só vou cantar quando a alma ainda plena
Me convidar para emplacar a grave cena
Estonteante de palavras que herdam paz

Nossos valores em cinzas mais que flores
Recaem em veredas de conceitos e concreto
E não pede licença, adentra-se pelo teto
Onde a boca não ensina, encena a festa

Para o lado vejo o pobre coração suplicar
Ao seu grande criador, com suave gratidão
Só não quer seu sentimento a serviço do inimigo
Quanta glória e dinheiro traçarão o meu destino?

Por menores que se vejam, coibirão minha praxe
Dizer menos o que sinto, de amar tão reservado
Na fronteira da certeza eu me vejo desmentido
E os meus pais não choram mais a criação

Já que não somos deuses ao modo primitivo
Que é tão moderno embora soe desatino
Por que temer se o amor foi tão pregado
Não basta gritos quando a dor é comedida

Quando a ciência empobrecia o homem fraco
E minha droga parecia acabar
Foi nesse instante que entendi que a alma dorme
Enquanto o corpo arde em febre o dia todo

A noite chega e enaltece o senhor rico
Que só enxerga algo que não o prejudique
De sua parcela já comemos nosso almoço
E o jantar segue alimento do mais forte

E muita paz, muito martírio, depende afinco
Do quanto bebo, fumo ou como em minha vida
Toda alegria entra em crise pelo esforço
E o trabalho mata a fome e mata o homem








26 de fev de 2012
A neura completa se abre ao caminho obscuro
lá onde os espíritos escondiam-se nas sombras
e o véu se rasgara ao meio no momento em que fui levado
pelos braços do pai ao então esperado julgamento


As perguntas me ardiam a alma embora de nada valesse qualquer proposta
meu fim iniciara-se e os galhos da árvore simbolizavam meu corpo
os sofrimentos retorciam os meus galhos já esquecidos pelo tempo
as alegrias irrompiam em sementes incendiando o solo infértil


- Me dominaste, Senhor!


A mim não fazia sentido me esconder dos medos. Cabe a mim, entendê-los
quando o forte fraco peso de uma vida resumira-se aos instantes finais de agonia


Expirou o prazo de validade de meu corpo faz algum tempo
vejo naqueles que me circundam a máscara velada do medo
e das incertezas.






Meu brasil continental quer do amor um pedaço
quer da honestidade um ganho
e da miséria seu prumo
quer da asserção do dia uma noite gloriosa
ou da noite assassina um pouco mais de afeto

Glórias incertas tornam-se certezas
Ofuscado brilho de uma evolução de pensamentos

Muito pouco do meu céu
são cachorros que em diversas direções
catam as migalhas e roem os ossos do meu desespero

Não tenho sequer pra mim

E de educação em educação vou esvaziando minhas dores
os pesares das instituições não se importam tanto com o homem humilde
e o ciclo mais uma vez nos conduz ao lixo, ao processo, ao consumo
recriar identidade não está emancipando a humanidade hostil
e o meu brasil segue às rédeas da globalização que cria recriando
que sorri do atraso na piada, que digere beleza em troca de morais



25 de fev de 2012
Parece que deus resolveu encurtar a conversa
E como se nada parecesse o que é em essência
Resolvi deixar-me guiar pela pressa
Urgência de amar e ser amado

Paliativo à dor
É o preço pago pela efemeridade dos sonhos
E resisto à culpa interna

Deus de fato tem seus propósitos
E meus remédios já estão no fim

Quer a morte entre a sorte ou medo encontrar-me?
Quer o corpo entregar-se ao morto por uns poucos momentos de prazer?
O "ser-no-mundo" não encontra seu lugar à sombra

Chega de sentar-se à beira do precipício
Joga-te!

Encontra-te nas pedras abaixo
Lá não parece ser nada bom em vista do ganho imperfeito
Pois, a face humilhada do morto
Retrata a paga imodesta

Convenhamos que a semente precisa ser plantada
Mesmo que pela mão humana

E não há crime maior que julgar a alma que sofre
Nem o espírito por mais santo que seja, resiste

E eis que chega o dia da colheita
Antes, vale lembrar das podas feitas ao longo tempo
Sabes bem que o amor que sinto prepondera
Ante os problemas propícios que não esperam

Eu, continuo esperando
Já que a derradeira espera ofusca o brilho da morte.

Doce Espera


24 de fev de 2012
A mão implora por um pedaço de generosidade
O braço quer no abraço, sinceridade
A boca quer do beijo só cumplicidade
E o olhar quer respeito

Os pés querem chão repleto de caminhos
O traçar de pernas anseia por espaço
Os ouvidos desejam romances
E os cabelos, um corte adequado

Meu cigarro quer dos dedos menos amor
As sandálias suspiram aos pés, amparo
A camisa quer menos suor e mais trabalho
O almoço pede insistente à boca, mais sabor

A tosse quer da garganta suavidade
Os óculos, dos olhos, tranquilidade
A máscara quer da face, sutileza
E a dor pede ao peito, docilidade

O bolso quer das mãos, dinheiro
Café, ao nariz, mais cheiro
A TV quer só mais atenção
E a coberta, dos corpos, desejo

Vamos interligando paixões
Quer da mente ou inanimação
Onde o céu pede ao mar a canção
E a intenção quer de mim, poesia











22 de fev de 2012
Ligeiras sementes jogadas ao vento
Altares erguidos no centro e nos cantos
Marias choramingando no templo
Deixadas à míngua, à sombra, aos prantos

O Menino deus então abriu a porta
Que a mim era delegado a abertura
Meu corpo então espremera-se à mossa
Estreita é a porta que leva à soltura

E de escassos pedaços de pão vou me alimentando
A terra da promessa era o ventre
Onde puro e simplesmente, éramos
E de batismo em batismo renovamos a antiga frustração
Onde a morte ou o pecado reinavam

Hoje quem reina é a mente, quer louca ou sóbria
De acasos, percalços do tempo onde tudo outrora era bom
Lá era onde devíamos estar
Mais que merecimento, mero pertencer

E das improváveis questões, não tem como escapar
Julgar nessa hora é o que menos importa
Amar, menos ainda
19 de fev de 2012
Caminharei até que me mandem parar
Resistirei ao ócio que me é paralelo
A fé tão destemida me ofuscara a vista
Por instantes diversos sua falha veio ao peito
Então eu hoje fumo bem mais  que outrora
E já não peco demasiadamente
Pois o amor escondeu-se ao nó do laço
E o amor negro quer da fonte um amparo

E definitivamente eu me escondo
Do homem mau que quer à beira do abismo
Me confundir e que pareça um desatino
E me jogando sem receio - encontro a morte
Virá a culpa mesmo quando o inocente
aflora à pele, onde o mito exclui o verbo

Não só de pão vive o homem quer com fome
Nem de palavras se é a dor que prepondera
Do lado esquerdo têm alguns que me detestam
Quando o amor é dispensado sem reserva

O meu cristo está coberto de vermelho
A sua pele está repleta de feridas
As cicatrizes se escondem atrás da pele
Que destemida honra a moral em frente ao pano

E encoberto de malícia está meu peito
Embriagado estão aqueles que me guiam
E as promessas me parecem utopias
E o véu se rasga e assume a cega alegoria

E desconverso sobre a vontade hostil
Não aceito que me vele o homem morto
enterrando aqueles a quem tanto amo
Vou descobrindo que o outro é quem condena

Meio errado não lhe é suficiente
Ou frio ou quente pois não há alternativa
Se o mau é bem o bom é mal, erros e acertos
Ato ou potência, a intenção é acessada

Nada de chance, se o perdão é negativo
Nada de amor mesmo que seja permissivo
Enquanto o crente é quem banca a fome alheia
Se infiltrando aqueles quem a fé não veio

Se homem ou dona, dono ou um pequeno pedaço
De honestidade, santa ou até mesmo profana
Esse limite deus será que determina?

E agora dizem que o meu materialismo
É reflexo de meu falso moralismo
Que repreende, impõe, mata e envenena
Pra ficar quieta, pois a mente não o julga

Sei ainda que a palavra dita esconde 
Sentimento com remorso se confundem
Eu imploro só justiça em humildade
Dá-me o que pela preguiça então decida
Quando penso o corpo e espírito se unem

A fé de fato necessita de razões
Que se beneficie enfim de qualquer mérito
A salvação virá por crédito pré-pago
À prostituta que à pedra ficou muda

A minha pele é tão sensível à alergia
Da insanidade que me leva ao criador
Se alguém pediu para existir então entendo
Que a essência e existência se encontram

Coexistir e o vir-a-ser são tão estranhos
O meu porvir até é bem aristotélico
Tanto sistema na cabeça encontra espaço
E vou seguindo mesmo com tanto embaraço
Que ante à dor, à morte, deus é quem se esconde






Assim me dizia meu pai na infância
Na cruz encontramos a paz na angústia
E não digerimos a carne da sexta
Enquanto Maria, aos pés do inocente
Seu filho, tão pobre, seu pai tão ausente
E juntos na perda nós cremos no ganho

Então como vedes não fui eu somente o culpado
Não me permitia pensar diferente dos antigos sábios 
E com distinção, discriminação do medo de um pecador
Ia entendendo que o mundo podia assumir a figura do mal

Assim, a partir dessa escolha, meio dissimulado tracei um caminho
E já não pensava sobre as migalhas e das artimanhas do céu 
Pra mim o que cria não nutre nem sente que bem mais carente é o tempo final
Antes, tem pecados não tão saborosos que a palavra divina no rito do mal
E com covardia eu lia e deixava que a empatia delegasse minha escolha e, então
Assim eu vivia, pregava, comia os pedaços de pão corporal
Com ele, por ele, e, nele eu me conduzia e bebia o seu sangue.







18 de fev de 2012
O coração insistira novamente em bater. O som ecoa do peito com uma melodia pouco marcante. Lembra aquelas canções que se aprende na infância. Isso traz à tona o peso de longos anos. Precisamente quinze. Justo a metade de minhas festas.

- Menina, acorda! 

O grito apoderara-se da garganta, mas, não fora suficiente. O silêncio permanecera. Fica difícil exteriorizar quando a fala se cala ao peito. Quando acordei, senti uma dor entre os seios. 

- O que aconteceu? Onde estou?

E as paredes brancas daquela sala pareciam-me dizer algo.

- Como se sente? 

Uma voz fria de uma mulher bem vestida, jalecos e pele numa alva sintonia. 

- Dor. Uma dor em meu peito. O que me aconteceu?

- Deus te deu uma nova chance. Teu coração decidiu parar por duas vezes! Mas uma cirurgia de emergência calara a sorte escura e tenebrosa. Bem vinda à vida!

Lembrei nesse instante da música quase chorada por minha mãe. Daqueles quinze anos que se passaram. As paredes brancas não hesitaram em me dar respostas. Lembrei da noite mais longa que levara minha mãe para além dessas paredes. Remorso ou culpa, aflição ou desespero. Só o que sinto é o desejo oculto que vela a perda. Acordei aqui. Mas, meu coração já bate para além de minhas vontades. Quase tive medo. Quase pude retribuir o amor sincero que, em quinze anos, não lhe fora suficiente. A presença e a saudade se aliaram à minha recente-má-saúde. 


De lado via-se dançando. Pouca roupa revelara o que sentia no íntimo. Pernas algozes determinam a ação. Conduzia o ato. Derradeiro instinto. Mais que pura selvageria. Espiritualmente entregue. A boca se prostituía em falas curtas. Decisivas.

Abraços escassos em suores suntuosos. O homem entregara-se. A mulher insinua o tempo inteiro e não se perdoa. Flagelos imitam o gozo. Antecipam-se.

Um. Dois. A androgenia troca de roupa de quando em vez. Treme-se o corpo de medo. Filiam-se os homens aos clubes de mulheres insanas. Entregam-se às hipocrisias das putas que mimam o homem alheio. Querem a paga modesta da entrega dos templos dos espíritos. Santos e cheio de vontades.

Meu corpo é uma via repleta de obstáculos in natura.
Minha natureza te aguarda.

As pernas vão conduzindo a pureza do ato sexual. As costas são como barcos num mar agitado.
Os pelos se aglomeram na fase que antecede as emoções. Arrepiam do ciúme inconstante. Doam-se às carícias das mãos sujas de sangue.

E eis que de repente as pernas tão duras se tornam macias ao som da palavra maldita
E se entregando, se deixa levado pelo encanto, negro, obscuro da cama bendita
Bendita a luz que agora é quem guia os corpos que se desviam. Teimam em se encontrar.
E se encontram. As ondas do mar se agitam ainda mais. O cais vai se perdendo na paisagem azul.

A pouca roupa não resistira ao corte irregular de mãos determinadas ao orgasmo vindouro. Culpas em mentes perversas. Falsas noções de perigo permeiam o ambiente hostil que só não resiste aos gemidos e sons de cabarés. A bebida só motiva. Assessora o pulsar do coração.

Se irrompe em francos momentos o jorro da vida. De morte. Do prazer infinitamente desequilibrado.
O grito do prazer se une à dor e à meiguice. E no esconderijo da pele estão meus medos, fraquezas e desejos.



Maria fugiu dos medos pra tentar entender os segredos da vida
e com esperança, sua face abriu-se ao sorriso ao abraço, ao pecado
Doenças, tristezas e algumas alegrias de um tempo que já não finda
amava demais e então os segredos, tais como enredo amargo

E o filme começa já com muita festa. Nascer, dor que não se adia.
Menina pequena levava pra cena um pouco de pimenta selvagem
No teto, na sala se pavimentava com o corpo, cruel simpatia

Sem rimas. Sem sons. Calava-se.
Pra ver o amado que chegara tarde, como sempre. A vida não lhe fora tão justa como se pensava. No jogo suntuoso do tango, compreendia que sorrir era algo imprescindível.
Rompeu o silêncio com um raso sorriso.

Lá pelas tantas, três filhos em pouco mais de três anos.

Eternidade. Efemeridade.

Sucumbem desejos à cama sofrida e cotidiana.

Continuo o filme daqui uns trinta minutos. Preciso cochilar um pouco.



Hoje, embora a fantasia, me aventurei em meus próprios sinais de medo e angústia que as alegrias concorriam com minhas frustrações tão ocultas e, ao mesmo tempo, frias e entusiastas.

De si mesmo, só via o invólucro demente da traição do tempo. Inesperado tempo. 

As minhas raízes parecem hoje com preguiça de atingir o subsolo. Não querem nutrir-se mais da fé em vida numa morte feliz. Rituais de dores se impostam a cada dia entre canções  e sanções. O homem doméstico é o homem da luz, do sal. 

Meus cabelos crescem desmedidamente. Minhas unhas crescem. Meu corpo envelhece. Os cigarros se acabam rapidamente. Minhas drogas são insuficientes. Dormir me conduz a sonhos improváveis. Consideração  por mérito ou discriminação. A escolha conduz aos precipícios. Lembra?

Batem boca por motivos banais. Tolerância ao processo criativo enobrece meus rivais que consomem meus produtos. O limite do respeito é atingido ao toque do telefone. [...] 

- Podemos conversar agora?

Já não insistia mais na arte. Me rendi a meus próprios sistemas. Vicia-me não andar pelos mesmos caminhos. A revolta do inimigo já não atinge sequer a minha imagem. 

- Ainda não estou em condições. Me liga outro dia. Tchau!

Um leve adeus consterna o ambiente. Meus hormônios não produzem com insistência as reações outrora tão afloradas ou sensibilizadas.

Quando de repente respeitei meus instintos. De volta ao cigarro da noite. De volta ao sepultamento das emoções. Uma a uma se vão rumo ao vento do destino. Revelações apagam o brilho do mistério. Como ritos sem sentido. As canções rezam pelo anseio de justiça. O espírito se cala já que a mente não descansa.


                                                                


Ateísmo, ceticismo, fetichismo, quero dança
Tem incesto, manifesto, as ideias não se importam
O meu Freud em meus dedos se diluem para o ato
Derradeiras companhias me instigam o tempo inteiro

-Ó meu filho, que fizeste! Venha logo para casa!

Com um grito, eis que exclama, minha mãe que não entende
Que prazeres, mais que vícios, me são raros desperdícios
Um cigarro baseado em minhas pobres insistências
Já não julgo os valores de tão fortes evidências



Existem aqueles que já não entendem os motivos do outro chorar
Só querem que o medo se torne segredo e nada de novo criar
As pernas se ajeitam com muito enredo e a prosa se põe a reinar

Num mundo sofrido dos pobres amigos que já não encontram o sabor
Da mesma comida, da luta, da lida, dos sons, dos tormentos de amor
E cantam correndo, morrendo, nascendo, vivendo, sofrendo de dor

Da perda concisa, legendas da vida entre cenas, romances, terror
No filme da vida não há quem me diga se é belo ser um mero ator
Venha sem premissas, sem falsas notícias de morte, enlaces, horror

Digamos que o tiro não veio amigo e acertou com doidice a testa
Conspira, suspira, inspira a chacina que atrai os retratos da peça
E bem destemido suspira o gemido e se acaba a alegria da festa

13 de fev de 2012
Maria com sorte escapou da morte ao dar vida ao seu primeiro

Como não sabia direito da vida, da luz, do derradeiro

Por ser tão miúda, tão frágil, confusa, entregou-se por inteiro

O corpo carente, eis que de repente assumiu-se ao passageiro

Nasceu como um broto, uma flecha, engodo, o pequeno companheiro

Bonecos e troços, família, remorso, produziu-se então, ao meio

A ingenuidade e sua fraca vontade não bastaram-se e alheio

Às desconfianças, às fortes lembranças de seu pai, tão desordeiro

De quem é a culpa, se a própria conduta da família tinha um cheiro

De fracas mudanças, de podres cobranças de um amor não verdadeiro

Sua mãe foi ausente, o pai mais demente que o engano do estrangeiro

E hoje se sabe que bem na verdade, uma dor surge no peito

E o amor vira mito, utópico rito nos lares brasileiros.



Mulata do salto quebrado, na noite passada, dai-me teu cheiro
Teu corpo safado invade a loucura do meu amor primeiro
A sensualidade não trai a saudade dos lábios que eu inteiro
Beijava e não me saciava o pescoço, a nuca e o seio

Segundo, o primeiro, o terceiro, lá estava eu tão sorrateiro
Da barbaridade e sonoridade das coxas e joelho
Muita insanidade, deveras verdade, que une nosso meio
Sou eu sorrateiro, terceiro, segundo, hoje sou o teu primeiro

A graça é divina a sorte eu não sei de onde vem, será o destino?
Quero divindade, tua mocidade invadindo o meu caminho
A pele morena, molhada, deixa na cabeça um desatino
Destino, ou sorte, na vida ou na morte, sou teu, não do divino

Vamos não me deixes tão desmerecido, tão triste, tão sozinho
Tuas pernas, teus braços, parecem desabrochar a flor que mata o espinho
Meu corpo sedento de beijos hoje só suspira teu carinho
E não há saudade lá dá mocidade. Pra você, me encaminho.







Salvai-nos
Mesmo que a dor tenha cessado
Antes, durante e após o ocaso
E o fim comece derradeiro

Salvai-nos
Que a luta vem e se insinua
E o coração não continua 
A cometer insanidades

Salvai-nos
Da intersubjetividade
Da graça ou culpabilidade
De meus desejos e instintos

Salvai-nos
De qualquer indisposição
Da falta que pela razão
Guarda a matéria, esquece o homem

Salvai-nos
De nós mesmos, da loucura
Do descompasso, desventura
Que recomeçam enquanto durmo

Salvai-nos
De toda sorte intolerante
Dos pés que em vão, rumam adiante
Não chegando a lugar algum

Salvai-nos
Da criação que discrimina
Do criador que abomina
As nossas faltas e transgressões

Salvai-nos
Dos gritos que pedem socorro
Da voz do pai, da voz do morto
Da escuridão que não vacila






11 de fev de 2012
A minha trilha me acompanha
Na alegria ou na dor
Meus sentimentos não abandonam
A criação

Deus me foi muito obscuro
Até o dia em que andei
Pelas vias do impropério
Cosmovisão

Um reggae Bob ou Peter Tosh
Dalva se une ao Baião
Chico revê o Caetano
Inspiração

O blues se emenda em meu soul
Sou só eu mesmo e o coração
Compõe às rédeas da alegria
Satisfação

Uma melodia bem vulgar
Brasis se unem aos sons de anil
Os que se foram tecem nós
Composição

Naquela casa se ouve deus
E meus demônios dançam nus
Chorar não trai o pensamento
Indignação

Pois essa trilha tem levado
Refeito a disposição
Julgar pra mim tem machucado
O coração

Vamos dançar à melodia
E as mazelas contrariar
E os pedacinhos se juntar
Compilação

Escuto e acendo um cigarro
O peito se abre ao som de Gal
Bethânia e Gil têm me instigado
Pertubação

Luiz Gonzaga, Elis e Tom
Multi facetas da saudade
Encontram-se no meu contexto
Respiração
7 de fev de 2012
Minhas certezas se calam quando pela raiva ou motivo qualquer de prazer
Minha emoção trai o peito segundos após feito o nó que traduz o querer
Embarcou pela via escura em que não há mais dúvida e o risco acaba maior
Desilusão acompanha a nossa história de amor

Um sentimento confuso na alma difuso que olha e não vê o porquê
Um arrepio que não se sabe bem de onde me vem e me rende afinal
Tuas mazelas são minhas, sorrisos e fúria que acalmam o meu dissabor
Pois o querer acompanha a nossa história de amor

Tua, somente, só tua, alma perpetuas, unida ou não pelo nó
E de repente o percalço me rói logo falso tentando enganar o meu bem
Quando eu queria as tuas desculpas não pude esquecer da dor da desilusão
Um sentimento contrário culpa a nossa história de amor

Como será tão possível, arco invisível, é nossa aliança que enfim
Vai construindo a pessoa, sou teu minha esposa, e você é tão minha também
Unidos na esperança, fé, desconfiança, parece sobrenatural
Deus ou será mesmo o diabo conduz nossa história de amor

Hoje acordei murmurando, e você me cobrando migalhas de amor matinal
E o que parecia pequeno, pra mim era efêmero, tornara-se um gigante voraz
Assim a gente aprende a olhar diferente pro outro que nos quer tanto bem
Dia ou noite a desculpa não trai nossa história de amor


Águas que reparam meus medos e constroem minhas falas num mundo alheio aos meus sentimentos mais ocultos e que, de tão plenos, envolvem minhas respostas.
Que respostas?
Aquelas que eu tenho a te oferecer são as da alma. 
Na ordem e progresso de meu sítio, encontra-se a dor. Encontra-se o valor indeciso e impreciso. Encontra-se a mágoa. O real sentimento que acompanha o medo.
Medo da água que repara.
Repara o medo.

As pessoas me causam certo torpor. E meu porvir inspira respeito e desconfianças. Não espere de mim a fala perfeita. Expectativas, deixo claro, não surpreendem o homem sensato. Soam como descobertas e não como surpresas. Já a morte, alheia à nossa fala, tem objetivos claros de confundir o espírito. Quer calá-lo. Então, não se surpreenda com ela.

Estou à beira de meus limites.
Não gosto de quedas, gosto de desafios que me levem às nascentes.
Entre as pedras se abriu um caminho onde transita a pureza original que mata a minha sede.

O corpo do estranho prostrado, sem vida, já a muito não surpreende.
A fome do pobre não me comove.
A doença fatal no humilde parece consequência de seus próprios medos.
O teu pranto me repele.

Destarte, fica difícil encarar a claridade.
Já na noite, tento dormir na esperança que essa luz se apague ao peso do meu cansaço. 
Ela não se apaga...

Não durmo pois, a inquietude martela.
O espírito se cala. A mente não se encontra. Não calcula. Não entende.

Medo e culpa empobrecem a sorte. Luzes de meu universo. Não se apagam.

Lembra da água tranquila da nossa mocidade?
Lembra do corpo belo, cheio de sabores, encantos e mantos que emanavam pureza feito a água mais pura; feito o sol da manhã aguardado pelas plantas; feito mãos em momentos de ajuda; feito olhares quando a dor cegara a alma; feito filho que suga com força o leite fadado à si próprio; feito suor após um dia de luta (?).

Nesse texto prefiro não propor soluções. 
Só te convido a beber um pouco de água. 
Ainda que a sede não tenha chegado.






Toda a cidade está parada
A praça o rio e a Matriz
Não há quem me responda nada
Não tenho quem me direcione
Não há pessoas na avenida
Dia após dia e nada muda
A prefeitura se indispõe
E a escola teme o afronte
Os pássaros lá sentem fome
Os animais pedem socorro
A confusão é preguiçosa
E quem trabalha pede prazo
A criançada já não brinca
As mães se encontram exauridas
Os pais só pensam e nada fazem
Muita apatia e pouca fala


6 de fev de 2012
Águas que ponderam minha sede
Tempo que não esconde o meu rosto
Sóis que dia-a-dia me consomem
Histórias acumuladas ao longo das águas
Que traem o tempo
Escondem-se do sol

Estou naquela mesma rua
Naquela casinha

Em nada mudou o meu quarto
A cama ainda confere um nobre conforto
Meu cofre guarda em segredo nossas joias
Fantasias e prantos

Lá estão meus filhos
Morando comigo

Há tempos em que o instante sutilmente
Lembra da fala calma e mansa

Há histórias em que teu nome se insere
Em muitas vezes, advém aleatório

Meu insucesso não descansa
Minha insistência é minha lida diária

Meus filhos choram o pão cotidiano
Eu choro meu lamento inconsistente
Pois à fome da prole ao pai é levado
E o tempo à esses me é insuficiente

Amores se vão
Vidas insistem
Filhos ainda insistem
Amores permanecem

Inversamente proporcional
É o amor

Peleja de alguns
Mérito de outros
Necessidade contingente da humanidade





3 de fev de 2012
Essa comida é indigesta
E o meu tempo não me espera 
Já tentei e hoje eu admito 
Que a cabeça só conserva

Dentro dela o que lhe apraz 

E todo o resto vem à tona 
E todo o corpo sofre à causa 
Agora entendo muito menos

Por que eu fui o escolhido 

Em tantas possibilidades 
Por que não outro/outra pessoa 
A minha pele é humilhada

Pois o vermelho eles não veem 

Que é comum e bate dentro 
Os músculos são aparentes 
Estou andando e tão inerte

Eu falo muito e me entristeço 

Sei que não posso responder-lhes 
Fraqueza alheia me incomoda 
Tristeza pouca é tão contrária


E pelas ruas da cidade 
Vejo os corpos insistindo 
De um lado a outro a liberdade 
É tão singela e passageira

Deus simboliza a esperança 

De uma vida melhorada 
O homem foge de si mesmo 
E não assume a caminhada

Sempre reclama dos problemas 

Por mais que sejam alterados 
O que me aflige é a insistência 
Tenho medo de desistir

Meu corpo não resistirá 

A alma também tá aflita 
De quando em quando eu retribuo 
A quem me olha com desdém

Quem me excita me detesta 

Quem ama, me ama também 
Vivemos todos sob o crivo 
Sob os olhares da moral

Ela no fundo subsiste 

Nossas vontades se retraem 
E à luta vamos insistindo 
Sem entender direito o pai

Será que ele reivindica

Para si mesmo o valor 
Que é tão humano e contingente 
Efêmero e traidor

A porta muda enquanto eu saio 

A luz se apaga eu fico nu 
Vou te escondendo e me achando 
O contrário também me seduz

Lá na parede da ante-sala 

Tem uma formidável cruz 
E os destinos perdem o senso 
E as conquistas perdem o cheiro

Por ser assim é que me entrego 

E aproveito o tempo alheio 
Compactado está o espaço 
A cada dia diminui

Até o ponto indecifrável 

Quando não tenho onde ir 
Quero que nunca me detestes 
Nem que afinal finda o amor

Que soe como desabafo 

E surja um novo entendimento 
Pra que a vida passe rara 
E eu siga um novo pensamento

Correr demais tem me cansado 

Você sabe o quanto penei 
Para não ser mais tão humilhado 
Nesse poema eu te encontrei.

O outro é muito importante 

Pra dar reais sentidos crus 
E na parede do Universo 
A divindade faça a luz.

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Olá! Sou Marcio Lima, filósofo e poeta. Trabalho como professor de Sociologia nas redes públicas de Goiás e do DF. 

Em meus textos se encontram várias facetas de mim mesmo, do mundo que me rodeia, do outro e da experiência da transcendência que transforma. 

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