30 de mar de 2014
na expressão do teu rosto
um breve desgosto no ar
não lhe tenho tão perto
quiçá me é certo sonhar
só me atrevo um pouco
adormeço o louco em mim
e descanso a mente
pra acordar contente, sorrir
se num gesto da gente
faz brotar a semente no chão
de repente, quem sabe
encontro a chave dessa paixão
que insinua
se divaga
se apressa
na canção
fica nua
se esconde
se revela
ao coração
pela rua escura
sou uma lanterna
sou fogo, luz de vela
sou o luar
a te iluminar


e da esquina olhava
igual passarinho
se desprendia
se atava
da flor o espinho
quando o sonho se acaba
melhor é voltar pra casa
que a vida nos ensina
sentimento raso
toques não serão os mesmos
sonhos viram pesadelos
deixa pra lá tua sina
a tristeza de lado
saudade eu não a tenho
deixa pra lá o empenho
o presente me fascina
e o resto é passado



somatizo problemas fugazes
em busca de sonho
desatino, emendo, entendo
olhares incertos
lado a lado, de frente, a sorte
é quem me ilumina
eu sou teu
e você
não é minha
um pedaço
do todo
uma parte
vem desata, me amarra
me cospe
depois vem e lambe
me descarta
seu jogo
maltrata
me mata
de fome
essa falta
contida
na mente
esse gesto
contido
na pele
hoje sou teu brinquedo
amanhã eu serei o teu homem
um pedaço de pão
não me sacia
a vontade do beijo
me contrai
do pescoço ao queixo
o sabor do desejo
de se dar sem medida
reabrir a ferida
e se fechar
o olhar sem destino
razão em desatino
me contrai
a expressão de menino
a canção invadindo
me contrai
desatai essa trama
que desamarra o laço
meu inteiro é pedaço
chão de barro, de lama





vamos suportar a fome
desarticular a opinião
vamos segurar o homem
para libertar o coração
a fé
veio brincar de esperar
o pão
resolveu saciar
o dia, que a noite não vem
o sol que amanhã vai nascer
ou não
é deus
querendo mostrar
o que já não tem explicação
e reunir
um lado ao outro, sentir
desejo ao meu desgosto
que a vida é feita de pura ilusão
ou mais
uma pitada de saudade
é o que basta pra solidão
é guerra
é guerra de paz
guerreiro, é guerra
é guerra de paz
para acalentar o sol
eis que de noite a lua vem
o que de sal tem na pele
de doce tem no querer
o que se ouviu dizer
palavra que se desfere
o meu futuro é você
o meu futuro é você

faz de novo o gosto se gostar
temperar o tom
se revelar

dentro da cabeça
escapa de vez em quando
qualquer desejo
luto e me distraio
de manhã

tenho nada pra oferecer
sei não
o meu sentimento de prazer
e dor
é o que demonstra quem eu sou
se escondendo sob o edredom

os teus olhos me distraem
a direção
falo mais do que antes ouvi
nessa mesa branca o sonho
é azul
que fica vermelho sem saber

noite vira sonho
noite vira dia
e meu corpo espera o amanhã
sol virá
não sei
teu amor virá
não sei
nos despir à meia luz
e comer do pão
apressados feito o clarão
teu amor é meu
não sei
e mal sei de mim
juntos vamos acordar o fim
E de repente o vento breve
abriu a porta do passado
e devagar a mente leve
e levemente
toda a verdade aparecia
lentamente
feito raiz que vai entrando
mais na terra
igual inverno esperando
a primavera
botão nascer
em flor
se abrir
se encantar
despetalar
deixar exposto
os espinhos
que outrora
a protegiam
do desgosto
que o amor
é fantasia
da cabeça
o que levar
se o que
tenho
é incerteza
que a vida
é louca
é luz de vela
é chama acesa
seria o livre arbítrio
a razão da racionalidade
o endereço da certeza
a medida da verdade

não há poema
verso qualquer
que determine
homem, mulher
o que sintam
desmereçam
enobreçam
o destino
que é infiel
e seduz
a lembrança
a vontade
é a cruz
que te deixa refém
da esperança

ser feliz ou nada
ou roubar o tempo
é subir a escada
e descer por dentro
9 de mar de 2014
sou o navegador
de teu aquário
de vidro
fechado
à exposição
por onde
se foi
o imaginário
entender
a tua
condição

e a meditar
em teus caminhos
deparei com flores
e espinhos
calmarias
e redemoinhos
desataste o nó
de tuas dores
e amarraste
longe os sabores
que a água
jamais
será vinho
ou o milagre
humano
for divino
levante
da queda
vença
as dores
reveja a tua prática
desmonte o teu sistema
que você só produz
o que te cabe
nem lembra que o outro
tem seu preço
um ser estático
em seu sossego
acha que o amor
tem a ver com o medo
quando a razão
trai seu próprio direito
de ser um homem
e não ser nada
existo antes de chegar
a madrugada
lá sou eu mesmo
sem compromisso
com a paz
com a verdade
mera incerteza
grande coragem
é se sentir
sem existir
antes do outro
é não mentir
pra defender
o próprio gosto
é um nó
na garganta
pedindo socorro
é promessa
esperança
de subir o morro
lá o sol
é pequeno
grande, a vontade
descabido e cheio
de felicidade
ela ama
e desama
tudo ao mesmo tempo
seu amor
é de sonho
de ares, de vento
que acalma a alma
acorda por dentro
a vontade que vive
de riso e lamento
ela sente e insiste
do bem à maldade
ela estoca afetos
se entrega às metades
1 de mar de 2014
dobre
se
leve
se
jogue
se
liberte
se
que eu tô vendendo o dia
pra comprar a noite
trocando a morte
por um bocado de vida
cessando o açoite
em troca de sorriso

banalizando a sorte
educando o corpo
situando o corte
estancando o sangue
alimentando o frio
acalentando o sono

rompe
se
drogue
se
arme
se
compre
se
empreste
se
quando aprendi a andar
foi você que ensinou
hoje eu desisto de tudo
pra me desencontrar
entre os desejos dos homens
tem verdades que afloraram n'água
deixe que o tempo acorde o destino
não vou me ver chorar
enquanto a força da vida
vier me retocar
não solidão eu não quero teus olhos
tua cilada é ruim
vou combater a tensão
que prendem meus pés no chão
aliás,
essa clareza do mundo
afoga a minha coragem
quando eu arrisco em amar-te
nesse jogo eu me embaraço
tô tão cansado de ser o que faço
n'arte, desisto de amar
é uma força que não sai de mim
ao teu lado,
pode ser,
está
Um pingo de mel
Adoça meu desgosto
Minhas avarias achegaram-se bem perto
E não sei, se desatino ou me esvaio
Se me permito ao encontro
Ou mesmo, deixo-me guiar pelo sonho
Ora alegre, ora medonho

Arrisco em lamber-lhe a pele

Emerjo do esgoto
Quer sábio ou louco
Pra descobrir o que de fato me aflige
Nem sei de cor o meu desígnio
Em quantas vias se ramifica meu caminho
Ou quantas partes de mim compõem o todo

Divido a minha parcela de afeto
Com quem queira
Desvirginado está o gesto
De quem só viu o próprio umbigo
E agitado está o feto
Da mulher abandonada

Minha demência, te dedico
Economia de versos
Isonomia de palavras

Me doo até onde eu possa ver
E no escuro eu me perco

Mereço a sorte do roedor
Quando no esgoto, me escondo

De lá, ouço os passos na calçada
Vejo o céu que descende
Até as profundezas da cabeça
Que se rebate no asfalto morno
Pra não culpar o inocente

E na minha indigência
Vou entendendo o rato
Para compreender o homem
um gosto raro
de aflição
é o que deixa
tensionado o calcanhar
a tua falta
é solidão
uma saudade
lesionando o pulsar
de tudo vou levar
para o chão de barro
e apagar o que de homem
tem no homem
um dissabor paira no ar
um despreparo
não há sossego que acalme
a minha culpa
não é preciso
nem necessário
e vou buscar uma verdade
que me caiba
vou defender-me
do adversário
a consciência
mero efeito
ou descaso
o que me resta
nem mesmo falta
o que o coração não entende
a tua razão vai e decifra
e onde mora o juízo?
dentro de um peito qualquer
lá bem escondido
tem uma boca pequena
esse tal de juízo
o que a mãe manda ter
o pai tem que encontrar
deixa o dia inverter
e a noite o santo descer
feito fumaça subir
o que o fogo queimar
cinzas no mar, aspergir
do que o juízo cobrar
do que a verdade mentir
vale o tempo da mãe
e um bocado do pai
que pra ter humanidade
vale saber esperar
e numa teia de gente
o laço é super-humano
me advém de repente
num botão
o que ficava escondido
aos olhos, boca, ouvido
hoje o presente não sabe
a direção
democracia se invente
não sabe o rumo latente
a moda dita o vigente
a intuição
o pai não entende o filho
a mãe perdeu o seu brilho
a mansidão
é que não tenho amigos
a teia inventa um convívio
um coração
somos uma multidão de solitários
nos livrando de amarras
segurando a liberdade
sem saber ao certo o uso
da consciência
múltipla

a verdade se equivoca
o meu ser que é pragmático
come, dorme, morre,
depois mata
sem saber se foi um crime
chora, ri, ata e desata
suas mãos são dois punhais
um atinge o coração
o outro, a cabeça inata
cria o seu próprio círculo
de pó e de fumaça
dialética de opostos
sintetiza a análise precipitada
e cria uma verdade
xinga, cospe, lambe,
ama a beça
e no mesmo tom, odeia
quando pinta um clima
ameniza o seu midiático
se refaz mesmo sozinho

essa vida é um descalabro
felicidade de bolso
o outro que fique ali de lado
tenho dó de quem me ama
ilusão à toa
em busca de quê
antes nasceu vontade
desejo, cobiça
alimentação

a palavra cobre
a minha nudez
já passou da hora
do homem moderno
achar sua vez

e não adianta
abrir a boca
se o coração
não quer ser feliz

sentimento chega
vai embora
sem fazer
a transformação

loucos são aqueles
que ignoram
outra forma
de se estranhar

ilusão à toa
hoje e amanhã
meu passado
enterro
lá no cemitério
da insensatez

quero o mundo agora
quero ser alguém
e me falta
imagem
verdade
mentira
me representar

dou o que não tenho
depois vou cobrar
antes ser o dia
que a noite
não cessa
até eu dormir

dentro está a ordem
pelo meu olhar
crio a cada instante
um deus ou magia
pra me enfeitiçar

esse canto é parte
dessa construção
já que o futuro
não tem no presente
sua direção
nessa cantiga de amigo
os olhos concisos
se viam tão sós
do coração ao umbigo
se abrem sorrisos
e nós

vou desandar meu destino
minar o egoísmo
colher noutro chão

quero descer até o ponto
em que ele decida 
a própria razão

manto alastrado de culto
verdade é um vulto
fiel do sermão

eis a escada
o muro
a pedra
o furo
da imaginação

antes da inconsciência
existe a presença
do corpo 
do pó

ao buscar outra natureza
o homem se engana
finge se encontrar

pérolas
eu jogo 
aos loucos
aos fracos
aos rotos
corações


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Olá! Sou Marcio Lima, filósofo e poeta. Trabalho como professor de Sociologia nas redes públicas de Goiás e do DF. 

Em meus textos se encontram várias facetas de mim mesmo, do mundo que me rodeia, do outro e da experiência da transcendência que transforma. 

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