29 de fev. de 2012

Insurgência

A minha lógica então se enfurecera do homem que a subestimara
Olhava para aquele que na verdade, era quem queria dizer-me algo
E com pouca insistência, pois já o conhecera, refiz o olhar e olhei a mim mesmo
Isso é o que torna o corpo vulnerável e a alma sempre a espreita
O suor não se identifica mais com o seu cheiro
E a canção não segue as mesmas rimas de outrora

Decadentes estão as folhas que, ao bater simples do vento, não resistem
Exaurida está a mão que não mais suplica o encontro desejado

Nem tudo é tão impiedoso que não encontre consolo

Pois a água turva ostenta caminhos que as conduzam a mares tranquilos
que, em definitivo, não o são

Os francos e sinceros abraços diluem-se nos pensamentos de pertença
E acabam esquecendo que existe a gratuidade, perseverança e resposta

As cores ficam fortes e transitam em meus olhos cansados
Esses o estão não pelo tempo, mas pela resistência hostil

Meu abraço assexuado estima por sentimentos
Meu olhar cansado procura a graça que o reflita
Se foi por Deus que a humanidade encontrou a paz
Por Ele venha a merecida paga

Inesquecível é o exagero na infância
Era uma droga que já nos auxiliava
Hoje eu quero esquecer todos os dias
E me drogar com as suaves agonias

Crescer pra mim talvez não tenha feito o certo
Minhas vontades em certezas e avarias
E pouco a pouco fui notando que a festa
Acabaria logo então eu só ficasse


Me arrependi, já era tarde então dissera:
Por que então abandonastes o teu escravo!
Agora eu sinto que o crime cometido
Pra mim foi lucro embora tarde anoitecia

Então ingênuo eu achava que o tempo
Era só meu e os meus pais não mais morriam
A morte era meu brinquedo preferido
De tantas célebres e graves poesias

Usando o outro como palco da comédia
O aplaudindo com distinta reverência
Ao pobre, fraco, abandonado insurgente
Adrenalina em doses rasas, comedidas








27 de fev. de 2012

Do que preciso

Faz-me sorrir enquanto a chama queima
Só vou cantar quando a alma ainda plena
Me convidar para emplacar a grave cena
Estonteante de palavras que herdam paz

Nossos valores em cinzas mais que flores
Recaem em veredas de conceitos e concreto
E não pede licença, adentra-se pelo teto
Onde a boca não ensina, encena a festa

Para o lado vejo o pobre coração suplicar
Ao seu grande criador, com suave gratidão
Só não quer seu sentimento a serviço do inimigo
Quanta glória e dinheiro traçarão o meu destino?

Por menores que se vejam, coibirão minha praxe
Dizer menos o que sinto, de amar tão reservado
Na fronteira da certeza eu me vejo desmentido
E os meus pais não choram mais a criação

Já que não somos deuses ao modo primitivo
Que é tão moderno embora soe desatino
Por que temer se o amor foi tão pregado
Não basta gritos quando a dor é comedida

Quando a ciência empobrecia o homem fraco
E minha droga parecia acabar
Foi nesse instante que entendi que a alma dorme
Enquanto o corpo arde em febre o dia todo

A noite chega e enaltece o senhor rico
Que só enxerga algo que não o prejudique
De sua parcela já comemos nosso almoço
E o jantar segue alimento do mais forte

E muita paz, muito martírio, depende afinco
Do quanto bebo, fumo ou como em minha vida
Toda alegria entra em crise pelo esforço
E o trabalho mata a fome e mata o homem








26 de fev. de 2012

Juízo Incerto

A neura completa se abre ao caminho obscuro
lá onde os espíritos escondiam-se nas sombras
e o véu se rasgara ao meio no momento em que fui levado
pelos braços do pai ao então esperado julgamento


As perguntas me ardiam a alma embora de nada valesse qualquer proposta
meu fim iniciara-se e os galhos da árvore simbolizavam meu corpo
os sofrimentos retorciam os meus galhos já esquecidos pelo tempo
as alegrias irrompiam em sementes incendiando o solo infértil


- Me dominaste, Senhor!


A mim não fazia sentido me esconder dos medos. Cabe a mim, entendê-los
quando o forte fraco peso de uma vida resumira-se aos instantes finais de agonia


Expirou o prazo de validade de meu corpo faz algum tempo
vejo naqueles que me circundam a máscara velada do medo
e das incertezas.






"brasil"

Meu brasil continental quer do amor um pedaço
quer da honestidade um ganho
e da miséria seu prumo
quer da asserção do dia uma noite gloriosa
ou da noite assassina um pouco mais de afeto

Glórias incertas tornam-se certezas
Ofuscado brilho de uma evolução de pensamentos

Muito pouco do meu céu
são cachorros que em diversas direções
catam as migalhas e roem os ossos do meu desespero

Não tenho sequer pra mim

E de educação em educação vou esvaziando minhas dores
os pesares das instituições não se importam tanto com o homem humilde
e o ciclo mais uma vez nos conduz ao lixo, ao processo, ao consumo
recriar identidade não está emancipando a humanidade hostil
e o meu brasil segue às rédeas da globalização que cria recriando
que sorri do atraso na piada, que digere beleza em troca de morais



25 de fev. de 2012

Espera

Parece que deus resolveu encurtar a conversa
E como se nada parecesse o que é em essência
Resolvi deixar-me guiar pela pressa
Urgência de amar e ser amado

Paliativo à dor
É o preço pago pela efemeridade dos sonhos
E resisto à culpa interna

Deus de fato tem seus propósitos
E meus remédios já estão no fim

Quer a morte entre a sorte ou medo encontrar-me?
Quer o corpo entregar-se ao morto por uns poucos momentos de prazer?
O "ser-no-mundo" não encontra seu lugar à sombra

Chega de sentar-se à beira do precipício
Joga-te!

Encontra-te nas pedras abaixo
Lá não parece ser nada bom em vista do ganho imperfeito
Pois, a face humilhada do morto
Retrata a paga imodesta

Convenhamos que a semente precisa ser plantada
Mesmo que pela mão humana

E não há crime maior que julgar a alma que sofre
Nem o espírito por mais santo que seja, resiste

E eis que chega o dia da colheita
Antes, vale lembrar das podas feitas ao longo tempo
Sabes bem que o amor que sinto prepondera
Ante os problemas propícios que não esperam

Eu, continuo esperando
Já que a derradeira espera ofusca o brilho da morte.

Doce Espera


24 de fev. de 2012

Petição

A mão implora por um pedaço de generosidade
O braço quer no abraço, sinceridade
A boca quer do beijo só cumplicidade
E o olhar quer respeito

Os pés querem chão repleto de caminhos
O traçar de pernas anseia por espaço
Os ouvidos desejam romances
E os cabelos, um corte adequado

Meu cigarro quer dos dedos menos amor
As sandálias suspiram aos pés, amparo
A camisa quer menos suor e mais trabalho
O almoço pede insistente à boca, mais sabor

A tosse quer da garganta suavidade
Os óculos, dos olhos, tranquilidade
A máscara quer da face, sutileza
E a dor pede ao peito, docilidade

O bolso quer das mãos, dinheiro
Café, ao nariz, mais cheiro
A TV quer só mais atenção
E a coberta, dos corpos, desejo

Vamos interligando paixões
Quer da mente ou inanimação
Onde o céu pede ao mar a canção
E a intenção quer de mim, poesia











22 de fev. de 2012

Pertencimento

Ligeiras sementes jogadas ao vento
Altares erguidos no centro e nos cantos
Marias choramingando no templo
Deixadas à míngua, à sombra, aos prantos

O Menino deus então abriu a porta
Que a mim era delegado a abertura
Meu corpo então espremera-se à mossa
Estreita é a porta que leva à soltura

E de escassos pedaços de pão vou me alimentando
A terra da promessa era o ventre
Onde puro e simplesmente, éramos
E de batismo em batismo renovamos a antiga frustração
Onde a morte ou o pecado reinavam

Hoje quem reina é a mente, quer louca ou sóbria
De acasos, percalços do tempo onde tudo outrora era bom
Lá era onde devíamos estar
Mais que merecimento, mero pertencer

E das improváveis questões, não tem como escapar
Julgar nessa hora é o que menos importa
Amar, menos ainda

protesto

  num tempo onde as tragédias são celebradas alguns tantos te querem triste, derrotado levante, sorria para o espelho, para a vida o teu sor...