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30 de jul. de 2012

Parede bege

E o medo fez outro refém: o tempo
E na estatura dos ventos perambulam pensamentos
Numa mania de deixar maiúsculo, o começo dos versos
E no estrato dos meus atos
Estampam-se retratos na parede bege

Não me venha com franqueza
Deixe-me às fraquezas de meu sentimento nu

Dublo a fala
Driblo o espírito
E deus, lá do alto se confunde
E novamente, o julgamento é adiado

Faltam-lhe provas
E, em qualquer memória bege
A parede de meu crime corrói o dolo
Imita o sangue
Desiste da pujança
De resto, a esperança
Sobra-lhe

A verdade não sabe qual posto assumir
Em passos curtos, deixou o pedestal rumo ao espelho
Viu refletido seu erro
E de fim, o umbigo
Desatou-se do feto
E o filho, ao mundo se entregou

Guiava-se. Não pela verdade
Entregava-se a qualquer vaidade
Que lhe parecesse amistosa

Provara do sonho
Da finitude do ato
E fora julgado segundo sua loucura
Fantasia, procura
De cada insanidade, fora julgado

E no fim a verdade velada no íntimo
Deu razão ao maiúsculo dos meus versos
E a memória persuadida ficou estampada
Recolhida, enfeitada
Nos retratos na parede bege

20 de jul. de 2012

Pássaro Negro

Pecados me mordam!

Caí na emboscada do inimigo
E só com o umbigo me preocupei
Se já me condenaram nesta vida
O que me restará após a morte?
Eu me silenciei em meus delitos
Só pra não machucar os que me amam
Agora me vem a sorte achar um teto
Bem quando ainda é tempo de agonia!
Me paira uma sombra no deserto
Do alto vem comida e bebida
Assim me ensinaram desde outrora
A fé sucumbe e brota a esperança
Onde andará o erro?
Quais os critérios me levarão à graça?

O coração do meu ser vaga pela correnteza da insistência. Meu prazer não digere as fraquezas do choro, nem dos dizeres do povo. Acusações permeiam entre meus braços e, me restou um curto espaço onde eu possa repousar o desejo. 

O espírito se parece com algo infinito. No limite do suspiro esconde-se o mistério derradeiro. Escrevo sob o crivo de tuas ameaças. Em tuas ciladas, o espírito se prendeu ao canto do pássaro negro. Em segredo estão as faltas e a omissão me deixa internamente tranquilo. E o peso da culpa se exterioriza ao canto negro do pássaro. A paz nunca me foi hostil, sequer companheira. Aliada do destino, segue o curso incerto dos mares jamais navegados. E no topo da nau, em seu mais suntuoso mastro, via-se o negro pássaro e seu canto.

O juízo vai ficando escuro quando o engano à vida se agrega. E meu juízo anda se rendendo às mentiras cotidianas. 

O canto negro vai adentrando-se às orelhas. Nada adianta a ação das mãos, dirigindo-se aos ouvidos. Lágrimas caem pelas extremidades dos olhos - entreabertos. A boca soluça umas poucas palavras. Ao queixo, restou-lhe a aflição da cabeça que, ora ao umbigo, ora ao teto, deixa atormentada a palavra. Cada ato busca um refúgio entre a fumaça e o cigarro; entre a mão e seus dedos; entre a ação e o pensamento.

Depois do crime, arrependimentos se escondem no interior da memória, como ao pássaro, seu canto. Quer bom, sombrio ou triste. Queira negro ou não.

16 de jul. de 2012

Sina

Dose de amor não se mede
E o corpo não cede à emoção
Quando o pescoço à nuca
Exige ao desejo sua fração

Exposição sem sentido

O cordão do umbigo se soltou
Na confusão perco o norte
Me alio ao mais forte, ao vencedor

Pra machucar sou eu mesmo

Não meço palavras ou ações
Quando me sinto perdido
Se vão os amigos e canções

Fica na alma a semente

De tão indecente quer brotar
Em outros campos e vales
Nem mesmo a saudade vencerá

Mais um cigarro se acende

A cabeça entende devagar
Vou desistindo com pressa
E ainda me resta o penar

Unir de novo é a sina

E o laço fascina meu dispor
O coração não tem culpa
Ao pescoço a nuca se entregou

14 de jul. de 2012

Encontro Oportuno

Deus que cria as mentes dos homens
Mentes que refazem deuses à medida de suas confusões
Medidas de incomum desvelo pela matéria inconstante
Desvelo pela natureza mais pura
Mais nobre

Meus pulmões se afadigaram do tempo
E quem na mente será capaz de guiá-lo?
Tenho medos que me conduzem ao erro
Ao desejo, acerto ou decisão
E meus pulmões temem a poluição dos espíritos
Poeiras de frias emoções que os levam ao desmantelo
E as almas resistem 
Aproximam-se da fé
Restam até o último suspiro de esperança
É quando os medos se calam
A voz fica guardada na memória das palavras
Os sonhos sucumbem-se e cessam 

Tenho que encurtar a conversa
Me enfeitar para a festa
Para o encontro
Oportuno

6 de jul. de 2012

Por um fio

Por um fio
de naylon ou de cabelo
Por um fio
De sonho ou pesadelo
Por um fio
As marcas pelo corpo
Por um fio
Adentra-se qual louco

Por um fio
Trapézio e picadeiro
Por um fio
Quebrou-se o espelho
Por um fio

As caixas pelo chão
Por um fio
O som, a televisão
Por um fio
A música calou
Por um fio
Fumaça se espalhou
Por um fio
Memórias do porvir
Por um fio
Entravas ao sair
Por um fio
Julguei indecisão
Por um fio
Completa confusão
Por um fio
Estava tão disperso
Por um fio
Amei além do verso






3 de jul. de 2012

Merecimento

Vou repartir o que me falta
E dividir o que me cabe
Compartilhar alguns segredos
Adocicar velhas verdades

Quem ante a estrofe não se espanta
Jamais ousou temer o sonho
Na esperança da entrega
O verso cala-se à fera
Enxerga o próprio abandono

Abominados sejam todos
Os que me cantam impropérios
Julgam banal qualquer critério
Zombam até da esperança
O forte ao fraco se amansa
Pra cometer seu adultério

Vou repartindo o que me parte
O corpo fica desolado
Ao dividir com a mente a culpa
Fico acordado e sonho alto
A boca fala do percalço
Os olhos findam-se na luta
O crime fica obsoleto

Quando o remorso não me assola
Quando o dolo me acalenta
O homem então se reinventa
Merecimento e não esmola

1 de jul. de 2012

Me pertença

Mesmo que o tempo bom
Não seja tão bom assim
E palavras se desencontrem
Me pertença

Que a chama vulgar - se adentra

Bem na mente o olhar - desaponta
O sorriso peculiar - desconcentra
E a água já não mais - me sacia

O abraço quer bem mais - que o aperto

O desejo quer do corpo - a carícia
O encanto só quer mais - empatia
A vontade junto à pele - se desprende

Que o sol dessa manhã - não me atinge

E a fé, maior que a falta - entorpece
O suor desce à face - rumo ao queixo
E o nó quer desatar-se - no encontro

A maré se aquieta até - o horizonte

Estimar pra nivelar - tua pressa
O feitiço empobrece - a magia
O desgosto emudece - a conquista

E o desejo bom

Se encostou na pele
E palavras se encontraram
Me pertença











































26 de jun. de 2012

Tarde amarela

Chegou
E tentou acender a fagulha do amor
Chorou
Meio desesperado pediu pra eu voltar
Voltei
E a maré do encontro então se agitou
Cortou
Bem na beira da praia e o silencio rompeu
De dor
E já sei bem de cor o que te fez mentir
Assim
E na tarde amarela o suor respingou
No chão
Só pra contrariar minha indecisão
Fumei
Devagar um cigarro, parei pra pensar
Pensei
Não havia razões que fizessem brotar
A flor
Nem mesmo coração que pudesse bater
Então
A fagulha do amor desistiu de acender
Rompeu
No momento oportuno o nó desatou

20 de jun. de 2012

À poesia - o louco

Para o grito - a rua
À calçada - os pés
Para a noite - a lua
Ao recorte - viés

Contra o susto - a calma
Ao sucesso - o bis
No final - as palmas
Sem querer - eu quis

Te amando - o muito
Desejando - o mais
Esperando - o fruto
Bem à frente - atrás

Ao azar - o lucro
Para o lucro - ainda
Mais ainda - o pouco
Pouco a pouco - finda

Indeciso - espero
Na espera - vejo
Desejo - o desejo
Boca-a-boca - o beijo

Examino - a vida
Vivo - atuando
Para o ato - a lida
Lida, ledo - o engano

À poesia - o louco
Na loucura - entenda
Julgamento -  torto
Ao juízo - a venda

Me poupando - a poda
À roseira - o espinho
Espinhaço - a mola
Amoleço - ao vinho

Embriago - o certo
À certeza - o plano
Quando minto - acerto
Quando acerto - engano

Vamos - e ficamos
Restamos - sozinhos
Só a sós - amamos
Ao amor - caminhos




19 de jun. de 2012

Crivos inversos

Sob meus versosCrivos inversos
Agora quem me dirá mentiras
Quando a verdade me engana
Invento minhas teses
E ao meio está o inteiro
Crio umas certezas
E as dúvidas me ensinam
Divido o pão
Assola-se a fome
Fumo meus cigarros
E as mazelas se escondem
No abraço me aqueço
E o mundo se resfria
Em minhas expectativas
No passado me distraio
Desejo o teu desejo
E no desejo me retraio
À cada inibição
O umbigo se destaca
Emerjo à essência
Na existência sou eu mesmo
A fé requer mistério
Quando deus é revelado
O homem ortodoxo
Se confunde com o falso
O agora é meu destino
E o porvir, deixei de lado

14 de jun. de 2012

Indigência

Um pingo de mel
Adoça meu desgosto
Minhas avarias achegaram-se bem perto
E não sei, se desatino ou me esvaio 
Se me permito ao encontro
Ou mesmo, deixo-me guiar pelo sonho
Ora alegre, ora medonho

Arrisco em lamber-lhe a pele

Emerjo do esgoto
Quer sábio ou louco
Pra descobrir o que de fato me aflige
Nem sei de cor o meu desígnio
Em quantas vias se ramifica meu caminho
Ou quantas partes de mim compõem o todo

Divido a minha parcela de afeto
Com quem queira 
Desvirginado está o gesto
De quem só viu o próprio umbigo
E agitado está o feto
Da mulher abandonada

Minha demência, te dedico
Economia de versos
Isonomia de palavras

Me doo até onde eu possa ver
E no escuro eu me perco

Mereço a sorte do roedor
Quando no esgoto, me escondo

De lá, ouço os passos na calçada
Vejo o céu que descende
Até as profundezas da cabeça
Que se rebate no asfalto morno
Pra não culpar o inocente

E na minha indigência 
Vou entendendo o rato
Pra compreender o homem








30 de mai. de 2012

A Saga do Conhecimento - Parte I

Ante a máscara o destino fez-se ao longo um pensamento
Desmascarando sentidos vou falar de alguns momentos
Evoluindo com calma acompanhe o movimento
Eu, então me apresento - me chamo conhecimento.

Para quem me ignora, eu só peço um instante
Vou me abordar agora - livro aberto na estante
E relendo minha história peço a você - não se canse!
Vou tentar ser bem discreto, sem abuso, sem afronte.

Abra a janela pro mundo deixe ele te explorar
Rapidinho como um “susto” vamos a mesa virar
Ele é quem será o assunto que eu vou interpretar

Sobre mim tentaram um dia a minha boca calar
Quando eu disse sem ironia sou “divino” a criar
Construindo, destruindo o temor era meu par
O homem entendia o mundo como uma fera voraz

Era assim que eu me mostrava, esse era meu valor
Era como entendiam a felicidade e a dor
Vários gritos insistiam - “piedade meu senhor”!

Bem menino eu conhecia
incas, maias, negro e índio
Os astecas, macedônios, o hebreu e o egípcio
a mim prestavam seu culto
Seja bom ou seja ímpio.

Uma vida após a morte era o que garantia
como uma cafetina ser usada à revelia
explicando a natureza: dia-noite, noite-dia
era como aquela gente, me usando, entendia.

Ou dragão ou o coelho neste ano se entendeu
que mais fraco é o homem, mas com o bicho ele se ergueu
e naquele continente tanto bicho virou gente
dinastia à dinastia, como eu fui intransigente.

Ilíade e Odisséia sustentavam o meu vício
se é certo ou errado, se é feio ou bonito
de longe se amedrontavam
os gregos e os fenícios.

Supersticiosamente, com estranheza me despia
pra banhar-me ao mar aberto que o cajado insistia
mandando os mandamentos contra toda hipocrisia.

Eu sou forte, eu sou guia da mais pura transparência
e de longe se avista toda minha onipotência
seja escravo ou liberto, eu já sei o rumo certo
povo com onisciência.

Com estes povos aprendi, neles muito eu vivi, neles muito fui atroz
pungente, fui desumano ao me esconder no pano da mais pura ironia
foram, comigo, feroz transformado em algoz do centro à periferia
e a aurora vislumbrava a luz da sabedoria
vinha ela toda prosa, seu nome: Filosofia.

Pouco a pouco eu insurgia em transformar esse guia
“opinar não é certeza”
vir-a-ser da água ao fogo, ser o fluxo ou engodo
imutável natureza
eterno e efemeridade, ser dois e ser unidade
resistindo à vela acesa.

De repente como moça bem vestida eu me sentia
muitos chegavam com fome, ao banquete, à orgia
eu chegava à mocidade refletindo a alegria.

Racionalidade era
bruta, forte: a verdade
que se mascarava em fera
no discurso da vaidade
outros amavam a justiça
buscando felicidade.

Toda minha impressão vinha de uma sensação
me tocando, me senti
e o homem bem vulgar não ousou em separar-se
da minha indecisão
sempre a desmoralizar, meu papel é declarar-me:
sou a indeterminação.

A buscar um mundo novo, dei a vida por meu povo
que vivia na incerteza
eu só quero a verdade, seja em busca da bondade
da justiça, ou beleza
condenado, tapo os olhos pra não ver tanta impureza.

A tua “mundanidade” te faz frágil e sensível
venha à polis sem o medo, conhecer o meu segredo
vou tornar-me atingível
se na sombra eu te deixava era porque eu achava
a imagem desprezível
como o sol de um longo dia fiz-me escravo da ironia
na luz me tornei visível.


Pela falta ou pelo excesso vou abrir meu manifesto
o equilíbrio é humano
temperança ou bondade, justiça e honestidade
juntas contradizem o engano
pelas ruas da cidade propagando a trindade
induzindo, esse é o plano.

27 de mai. de 2012

Empatia

Quero que a rima se acerte
E o sol adormecido desperte
E recomecemos um novo o dia

Ainda que por ironia
Os sonhos resistam aos próprios desejos
Ao toque, rimo com beijo
Espelho com face
Receio com medo

O nada aproxima-se do engano
A covardia envolveu-se no pano
Pra não desacatar a coragem
E desmistificar o divino
Que habita dentro da imagem do sonho
E desperta na rima incomum

Os lábios sussurram vontades
Os males, verdades
Que então, descortinam a cena muda
A casa do corpo, espera do outro
O gosto que lhe apraz

Não tenho certeza
Mas algo insiste no peito
Queria ter em mim o que no outro eu desejo tanto










Questões

Questão de destino, a vida
Não tenho um caminho que me valha
À beira do descaso, espelhos que me remetam ao íntimo
Pra não desbocar nos mares de meu pranto
E nem encurtar com pontes as verdades de elos tão distintos

Questão de acerto - o ganho
A planta precisa do sol, da chuva, do vento
E suas sementes se espalham ao canto de pássaros
Ou na nudez da poluição de meus atos

Questão de ordem - as palavras
Mesmo que doam, necessárias
Na boca do homem, lanças a ferir ou acalentar

Questão de sexo - o gênero
E Deus vai escolhendo quem mereça o céu
Morais violentam meu corpo
Justificando dúvidas e certezas
A fim de conquistar o mérito divino

Questão de céu - infernos na minha cabeça
E mundos invadem o meu mundo
E me dizem tão pouco de mim
Que não me vale a pena sofrer por tão pouco

Questão de amizade - intrigas
E descobriu-se que os erros são pequenos
Quando o coração está tranquilo

Questão de sucesso - assessoria
Tão provado quanto a água mole
Que perfura as mentes não tão brilhantes
Ou resvalam-se no irrelevante
Pra alavancar egos
Quer falsos, sinceros ou inocentes




8 de mai. de 2012

Desengano

Tua luz encobre a chama tão modesta
Eu não sei amar além de mim
E no outro a cobrança rasga a pele
Bem maior do que eu tenho a oferecer
Juntamente à minha ingrata ignorância
Têm ausências, desperdícios de palavras
E o coração está mal decidido
Anuência à moral desconhecida

Eu não sei se quero ser o que se pensa
E o tempo me tem sido opositor
Quero amar além dos pés e da cabeça
Te agradar antes que o sol se destitua
Um conceito não apara as arestas
O silêncio diz mais quando escutado
Enquadrando minha fala tão escassa
Estão sós os meus a quem devo respeito
Minha inclinação leva-me ao crime
E os sonhos vão morrendo um a um
Dividir minha conversa com estranhos
Desperdício de moral abandonada
E empunho a faca cega enferrujada
Pra ferir e deixar dentro a moléstia
Minha pobre opinião sei que não presta
Pra desiludir qualquer forma de engano
Sou mais um que sem o convite à festa
Me instalei para lograr qualquer sorriso
E saí desiludido e apressado
Pois de fato lá só tinha o que me resta
Um lugar longe da luz que esclarece
Ao saíres, deixe acesa aquela lâmpada
Que ilumina o corredor antes da sala
Para quando eu chegar com meu cansaço
Não tropeça em meus próprios desenganos

23 de abr. de 2012

Troca-troca



Te dou um pouquinho da minha moral
E quero em troca muitos sorrisos
Tenho um banquete de palavras pra te dar
Em contrapartida, a tua mania de me sentir

Quero a compaixão que acalenta
Em troca, tenho escondido no peito, satisfações e alegrias
Queres meu respeito? Me dê liberdade de pensamento
Pra que eu não fique jogando migalhas de versos no asfalto quente

Tens amor aí dentro? Podemos fazer um trato:
Enquanto vou dispensando do meu sem reservas, guarda oportunamente do teu e me dês quando necessariamente eu merecer.

17 de abr. de 2012

Colóquio

E novamente estava ele embriagadamente notável. Nunca vi noutro alcoolista tamanha gratidão. Meus olhos pareciam assemelhar-se aos seus. Como de costume em nossos breves encontros, sugeri uma nova virtude e um novo defeito, afim de sua apreciação.
- Coragem e preguiça! - Sem menores excitações, fui direto. E com tamanha pujança e inviolável destreza, me disse sem menores entraves:
- Se ter a coragem me traz uma virtude e na preguiça percebo um vício, assumo o risco que me opõe à premissa. Como pode a coragem ser predominantemente uma virtude quando o tempo inteiro fujo ao que me é naturalmente peculiar? A coragem passo-a-passo vai tornando-se invasiva ao passo que a preguiça me remete à esperança, maior das virtudes. Naturalmente opostas no conceito porém, indiscutivelmente idênticas na forma.

Caía sofrente a mãe do demente, implacável
Que entre poesias agia de forma arbitrária
O sol foi tão quente que a alma da gente dormia
A mente imponente à cruz, inocente, morria
Não dorme, só mediante a droga fiel e contida
Chorando o demente da sorte cruel recorria
Sua mãe insurgente não teme o leito esquecido
E toda mistura contesta a pureza da origem
Se o natural se envolve com a divindade
Confunde o doente na fé eloquente e contrita
Respira na água, no ventre do quarto escuro
Se dosa e administra seus próprios limites


Medo

É o medo
É o medo sim
É o medo
Que não deixa eu ver

Mas como vencer?
Será que é simplesmente ter
Um pedaço de pão?
Ou um castelo de areia fincado no chão?

Quiçá

Quiçá eu veja melhor,
Quando a dor se elevar à chama
E de cama em cama
Possa eu me esquecer e me esquentar
E não julgo os olhares vis
que esperam me ver em sombra
Pra que eu não ostente a claridade
Nem mesmo eu suporte a sorte
Que da morte uma chance se lance
E a semente no breu germine à face
Pois o amor é o utópico enlace
Que todos percorrem em águas correntes

Quiçá eu entenda o outro,
Quando o sol se esquecer de nascer
E a lágrima deixar de cair
Crescer é um ato do ser
Eu pretendo não mais insistir
Mesmo quando sofrer é o encanto
Quer mazelas ou ar puro do campo
Vou juntando os pedaços de mim
Pra no fim ter ao menos sossego

Quiçá eu ame,
E convicto eu me traia em meus ais
Pois cantando eu recito o dia
Em que vi meus desejos fatais
Infiltrar a pele na noite tardia
Vagarosamente na ruga escondida
Os meus pés choravam à mágoa e à míngua
E inconstante me tornara em o que vês
Pra jamais me esquecer do meu pecado
E no poente, a lente espessa em meus olhos
Bem como o barro agoniado da ilusão
e esfregado junto à lágrima obscura
A noite chega e clareia o universo
Iluminando o escuro de meus versos

Pedaço

Um pedaço de mim suspira altoO outro pedaço, chama
Um pedaço não sabe bem quem sabe
O outro pedaço, invade
Um pedaço suplica a outra parte
Mais que desespero ou morte
É a parte que te cabe

Um pedaço de mim não se corrompe
O outro é um enlace ambulante
Um pedaço não resiste ao toque
Já o outro se bate
Um pedaço insiste em comover-se
Quando a dor caminha ao lado
É a parte que te cabe

Um pedaço de mim é cintilante
O outro um pedaço de brilhante
Um pedaço só pensa em humilhar
O outro não cessa de julgar
Um pedaço não planta o que colhe
Quando o crime resvala à sorte
É a parte que te cabe

Um pedaço de mim é obscuro
O outro pedaço, inseguro
Um pedaço questiona o tempo inteiro
Já o outro suspira por sossego
Um pedaço ama além da sua vontade
Quando o chão é o leito indivisivo
É a parte que te cabe

protesto

  num tempo onde as tragédias são celebradas alguns tantos te querem triste, derrotado levante, sorria para o espelho, para a vida o teu sor...