23 de jan. de 2012

“Vamos ao médico?”


Quando Auguste Comte me ensinou que eu deveria sair do contexto porque atrapalhava a “ordem natural das coisas”, é que me dei conta que de fato não existiria outra forma de contrariá-lo.
Ele tinha suas razões, e de suas análises fez somente elucidar e profetizar a grande questão do mundo:
Que uma parte de mim visa adequar-se. A outra se sensibiliza com a própria miséria que clama, chora e reivindica. O primeiro homem serve. Já o segundo tem que se curar. Ele foi esperto. “Propôs” a doença, pois já sabia a cura.

“Ser, nada.”


O que de fato precede a essência das coisas?
Sartre um dia me disse que antes de tudo “eu existo”, e isso já me seria mais que suficiente...
Eu desisti de existir.
Então, me dei conta que nada sou.
E o que é o nada?
Que relação existe entre o ser e o existir?
Daí a resposta: o nada.
Entre ser e existir me resta apenas a compreensão, o subjetivo, o acaso.
Minha intenção jamais foi justificar fatalidades.
Em verdade, elas existem, pois estão aquém de mim mesmo. À elas atribuo essências jamais colocadas à reflexão dos grandes pensadores, pois ninguém suporta a condição do “não senso”, condição essa naturalmente justificável e que não tem intenção nenhuma de levar os homens ao delírio ou ao fatalismo.
Tudo seria bem mais tolerável se admitíssemos essa causa que não tem pretensão de ser causa, e por verossimilhança coexiste com a outra possibilidade, menos aceitável, da causa primeira (propositalmente redundante).
Não estou pregando ou levantando a bandeira unilateral do “não-sentido”, só admitindo, não questionando, mas, querendo entender.

“Ser é não ser, eis a questão”


eu sou e não sou ao mesmo tempo
o absurdo é tão lógico pois é comum
já te amo pois te odeio
choro ao sorrir da desventura
me sacio da falta
lentamente morro de esperança da vida
subo ao mais alto e me jogo
vou e volto dentro de mim como um ocaso
durmo desesperadamente pois anseio acordar cedo
vejo as pessoas e desejo encontrá-las
penso e de repente me esqueço
quieto, e mais agitado me encontro
me encosto pra te ter distante
me arrumo pra ficar mais feio
tão estranho é quando mais te entendo
tão agora quanto eterno
tão potente pois é frágil
pra tentar eu desisto
pra andar eu me instalo
ofuscado fico sóbrio
me afasto e me encontro
quando finges me esclareces
quando falas, eu me calo.

21 de jan. de 2012

À Janela


                         Filhos de uma cultura machista
                     Arroz e feijão da preguiça
                  Fingimos amor sem medida
               Damos do que temos e é pouco
             Divirto-me ao som dos meus bichos
          Acordei bem cedo pra missa
        Pra sentar-me perto do altar
       Já não tenho muitos amigos
        Restringido está o espírito
          Que só quer repouso e alimento
           Mães e pais em torno da mesa
            Não chegaram ainda os filhos
             Desolados ao som do Roberto
              Que traduz qualquer sentimento
               Em indefinida esperança
                A mulher espera alguns dias
                 E não tem retorno do amado
                  Em suaves contorcionismos
                   Sobrevive o amor a duras penas
                    Filhos de uma terra alheia
                     Não conheço quase nada de mim
                      E os olhos entristecidos
                       À janela, perseverantes
                      À janela, perseverantes
                      E os olhos entristecidos
                     Não conheço quase nada de mim
                    Filhos de uma terra alheia
        Sobrevive o amor a duras penas
      Em suaves contorcionismos
    E não tem retorno do amado
           A mulher espera alguns dias
         Em indefinida esperança
       Que traduz qualquer sentimento
     Desolados ao som do Roberto
    Não chegaram ainda os filhos
  Mães e pais em torno da mesa
Que só quer repouso e alimento
Restringido está o espírito
 Já não tenho muitos amigos
     Pra sentar-me perto do altar
       Acordei bem cedo pra missa
         Divirto-me ao som dos meus bichos
           Damos do que temos e é pouco
             Fingimos amor sem medida
               Arroz e feijão da preguiça
                                                    Filhos de uma cultura machista

COMPONDO O BANQUETE Parte 2

E o medo não se conteve. Aliado ao mesmo estavam a moral e a hipocrisia. A moral não se satisfazia só em defender-se, queria sempre mais. Já a hipocrisia se beneficiava do mérito de manter-se velada, condicionada aos resultados que, negativos ou não, ao se fizerem conclusivos, os meios se transformam em verdadeiros caminhos. 

Aquele a quem devemos prestar homenagens por ser a fonte primária ou a face espelhada que emana de si mesmo a força da vida, tem por genuinidade, a supremacia do sentimento. Devemos nós, meras criaturas crentes, até que ponto, adorá-lo? O que está dentro do Templo carece de tantas coisas além de gratidão? Se grito é porque espero que alguém me escute. É da natureza divina reunir todas as coisas em torno de si? O lobe em que estão sendo defendidos esses interesses deve ser minimamente obscuro. 

O apego é uma forma humana de verificabilidade. Sentir é caminho onde experimentar é desnecessário. Acredito no homem que me trai, na natureza que reconstrói, no passado que incrimina, na relação que se dilacera, no ombro que chora, na arma apontada na cabeça e nos calos que atormentam o corpo. Venha através do diálogo estabelecer uma narrativa!

Quando posso, retribuo. Não temo quem me faz o bem. Respeito quem não gosta de mim. Do alto ouço a voz poderosa que me diz o que é certo fazer. Embaixo, sempre estão me aguardando os que comungam de necessidades tão ocultas.

Se não me identifico com o primeiro, estou fadado ao ocultismo de minhas carências. Há quem as chame pecado, pois o brilho pode não identificar deveras, uma joia real. Deus pra mim é como um pingente alocado abaixo das meninges. Minhas loucuras se encontram lá, travando uma batalha com sabor de contenda. 

Meus estigmas revelam  a fraqueza de meus pais. A mãe cuida da casa enquanto o pai vai em busca de alimento. Palavras não são suficientes. Quero colo, quero alma, quero afeto. A figura redentora me vem com a consciência. Pertencimento se difere de subserviência. Verdades de lado, ficam esperanças. O outro, de lado, resulta em desespero. As causas e os efeitos se confundem na alma perdida. Esclarecimentos me conduzem a mim mesmo. Certezas são como migalhas consumidas rapidamente. Preciso me alimentar todos os dias. Na água da vida vou acrescentando aos poucos o trigo da minha insanidade pra fazer o pão das escolhas. 

Quer um pedaço? 



Asas


As asas da humanidade comungam nesses tempos de uma incomum moral estabelecida. Traio meus princípios a todo momento. As circunstâncias vão dosando o dia-a-dia. O limite incondicional do amor abaixa a cabeça. O itinerário o conduz por caminhos estreitos, mascarado pelo tempo, pela água turva do conhecimento. Desde quando tentaram definir questões sobre o homem e seu comportamento, é que nos instalamos no tempo. O dom de perpetuar a espécie se transformara. As urgências se relativizam. O corpo ignora certas questões outrora relevantes. Meus pais me educaram à luz de uma verdade. Verdade que pregava a obediência subserviente. Nunca a indução me foi uma forma de transcendência jamais deixada de lado. Ter como verdade mistérios incognoscíveis a olho nu, concorrem com as arestas e cicatrizes presentes em minha pele. As carrego como pingente. Joia muito rara. Rara como a semente que se concede ao fogo para germinar. Este é o sentimento que alheio à própria pele, resiste em aceitar. Dom são os filhos. Como impedir ao pensamento algo que lhe foge à lógica? Como insistir, qual o vento que a toda força que lhe é concedida pela sua mãe maior,  teima em derrubar o teto do meu abrigo? Quanto aos meus iguais, desejo-lhes sorte. Sorte pela escolha. Converto-me sem questionar a vontade. Meus pecados sempre me acompanharam. Nunca à própria sorte me encontrara nas situações de escuridão. Lá se escondiam verdades absolutas. No interior da noite é que os filhos, embora já adultos, se recolhem aos braços do pai. Curvar-se ao beijo alheio não me isenta da obrigação de perguntar-lhe o nome. Repare que entre todos nós que convivemos, sempre houve um demasiado louco que propusera ir ao encontro da droga certeira. Loucuras de lado, nos concentremos diante da nossa mãe maior. Peço um minuto de silêncio. Não desista do sonho, mesmo que este insista em vir todas as noites. Sinal de cansaço como se um braço de água sucumbisse à poluição. O homem se esquece que a vida é tão efêmera. E as ligações sonoras da fala, disturbam a alma sedenta de composição. Explode em versos, mistérios e equações de todos os tipos. Assim está a alma que bate na face do corpo doente. E peles e pelos se borram em gelo, a dor é eminente. O sol empobrece com peso da idade. A perna encurta o passo rumo à porta central. Sempre adiante estão militantes, jardineiros da saudade e mulheres de corpos morenos. Estão reunidos pra entender como as pessoas se comportam. As mulheres morenas viam as pessoas como rivais de suas próprias invejas. Não foram capazes de absorver tamanha sabedoria. Se deixaram levar como um único pano bem fino numa noite   fria. Já os jardineiros ousaram plantar no campo da saudade meus dadaísmos repletos de frases com um nexo duvidoso. Eles com especificidade, vão jogando as sementes da fala. E de quando em quando, o homem visionário que cuida do meu jardim, vem regar com entusiasmo. A colheita parece próxima. O tempo perdeu seu intuito quando o homem resolveu andar com as próprias pernas. Logo avistei próximo meu portão um grupo de militantes. Levantavam bandeiras de todos os tons, países e coisas mais. Proferiam sofismas encarando verdades. Abriam o caminho como um bandeirante. Pena não prestar muita atenção no que vai destruindo pela frente. Minhas ideias nesse instante se confundem nos versos insanos dessa fala. Falo de alguns momentos. Falo de mim mesmo, pois não aguento muito o silêncio do papel em branco. E vamos usando a fantasia do dia-a-dia. Preciso de uma droga que me conduza a mim mesmo. A pele e o pelo não suportam mais viver uma moral de bandidos que não assumem o próprio crime. Ladrões do carinho interrompido pela violência de quem te deveria respeito. Roubam o corpo e furtam a alma. Dividido está meu coração nessa noite que não dorme. Assumo o gueto, a tribo insalubre dos meus desejos. Posso também militar morais tão bem aceitas ou até mesmo colher dos meus frutos. Assim posso então dispensar algo de mim mesmo. Traga para mim o lençol. Acho que já secou ao vento frio. Vou embrulhar-me no manto de minhas confusões. Vou me retratar com o espelho interior. Estou precisando dar um tempo pra mim mesmo. Aberto está o coração do homem que não usa do outro quando entoa seu canto de liberdade. Vou construir minha própria ponte. As asas vão se abrindo e fechando cada vez mais forte rumo à ventania.

19 de jan. de 2012

Tiros

Uma leve dor surgindo,  velada em segredo dentro da garganta. É como uma sede que só respeita aos comandos cerebrais. Pena que minha cabeça ultimamente não dê conta de tantas coisas. Saudosismo a parte, sabe-se que o fruto é conseqüência do processo. Instrumentalizá-lo é o que se tem feito com quaisquer sistemas matemáticos. A sociedade me vem à pele como um óvni. Medo assim não sentia faz tempo.
Paralelo, estava a vontade de dormir. A cabeça  aflorara-se em considerações constantes, porém absurdas. Não distinguir o corpo do espírito quando a dor lhes compete, acaba se tornando tarefa árdua frente às limitações daquele cérebro outrora citado.
Durmo ou assumo as loucuras.
Gritar e deixar fluir o sangue oprimido no pescoço ou tornar-me cego e substituir uma vontade de permanência numa dispersão desmedida de desejos? Eis o dilema cotidiano.
Disseram-me que viver aliado ao mistério seria o melhor. De fato, esse sim fascina, pois na vaga lembrança se escondem as fantasias. Desde sempre aprendi a crer. Fé é um empreendimento que vai se amortizando pelo peso do sofrimento que, não mais como um mistério, vai se manifestando simples como fenômeno.
 As histórias vão tomando formas. O sono vai se justificando à medida que as lembranças vão se apagando. Ver o mundo é ver-se a si mesmo.


Uma sequência de tiros vagueia o imaginário. Sons abruptos absorvem o corpo daquele jovem na rua. Da janela vejo só o silêncio e uma sombra. A morte, à sua maneira clássica, traz de volta as lembranças. Não há vestígios do algoz. O que teria motivado aquela alma no instante em que a minha vagava pelo quarto escuro? Sons de socorro paralisam a madrugada. Instintivamente, meu coração não soube medir a importância do outro.


Minhas loucuras se mesclam aos meus princípios. Nesse instante se chocam. O elo perde-se no cenário que envolve as almas.
A quem devo o amor primeiro? Dispensarei no rio da sociedade minha glória ou derrota?
Em doses todos choram. E resistem em assumir o sentimento.
Em sortes todos arriscam. E admitem não vencer sempre.
Em partes todos amam. E estabelecem vínculos.
Em mares todos sonham. E atravessam horizontes.


De Frente pro crime
João Bosco

protesto

  num tempo onde as tragédias são celebradas alguns tantos te querem triste, derrotado levante, sorria para o espelho, para a vida o teu sor...